Helena me contou que, em determinada ocasião, trouxe de seu sítio algumas tangerinas, e, ao chegar a casa, arrumou-as em uma fruteira na cozinha. Os dias passaram e ela acabou esquecendo-se da fruta. Sua diarista, sempre que ia à casa dela, perguntava-lhe se podia jogá-las fora, pois estavam ficando murchas.
Um dia, enquanto cozinhava, Helena percebeu que a pele de seu braço estava trêmula, enrugada, flácida, e pensou: “Estou velha. Como o tempo passou!”
De repente, despertando de seus pensamentos, lembrou-se das tangerinas. Como não as encontrou na fruteira, bradou: “Aquela diarista!” Mas, acabou encontrando as frutas numa sacola, próximo à lixeira. Rapidamente, pegou-as de volta, pôs-se a descascá-las, e provou-as. Ficou maravilhada, pois, embora estivessem murchas, seus gomos eram doces como mel.
Naquele momento, sentiu o Senhor falar ao seu coração: “Está murcha e enrugada, mas tem mel nos seus gomos!” Helena sorriu, pois Deus a fez entender que, mesmo na Terceira Idade, fase em que muitos idosos se sentem inúteis, ela ainda tinha dentro de si o doce sabor do mel; doces momentos que, do alto de seus quase 80 anos, independente das circunstâncias vivenciadas, poderia compartilhar e ajudar alguém.
O doce das horas insones, das dificuldades enfrentadas no início do casamento, da traição, da rejeição, do choro escondido, das perdas, e até da solidão. O doce sabor experimentado no dia em que despertamos para a arte de criar filhos, de sofrer com eles e por eles, de educar, de zelar pela casa, pela família, pelo casamento, de estudar, conquistar, entender o outro. E ainda há mais doce para repartir.
Quanto a Helena, no dia seguinte levou as tangerinas restantes para sua igreja. Compartilhou uma com um senhor que a ajudou na saída do carro. Contou a história a ele e, mais tarde, numa reunião de mulheres. Ela é um exemplo. Aos 78 anos, mesmo sofrendo de artrose, todos os domingos tem o prazer de preparar, e de levar para a sua igreja, um gostoso bolo de cenoura.
Que essa deliciosa experiência nos ensine a olhar com mais amor, respeito e compreensão para o rosto, muitas vezes, cansado de um idoso. Essas pessoas têm uma história de vida e muita sabedoria para dividir conosco. Que o exemplo de Helena nos incentive a ser gratas a Deus por todos os momentos que Ele nos proporciona, independente do sabor que tenham.
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